MATÉRIA SOBRE CIBORGS

Por: Fabiano e Maria Juliana Carvalho.

Na última quinta-feira de Abril, a curadora, pesquisadora de dança, doutoranda do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Maíra Spanghero deu uma palestra para os alunos do terceiro ano da habilitação de arte e tecnologia do curso de Tecnologia e Mídias Digitais.

Maíra falou sobre os resultados de sua investigação / pesquisa de doutorado sobre a modificação do corpo nos domínios da comunicação, ciência e mídia na sociedade contemporânea influenciada pelo efeito do seu crescente relacionamento com a tecnologia. Em que nossos corpos não só controlam e modificam os outros como já podem ser vistos como resultado dessa relação.

Cibrogs

Se para Lavoisier “na natureza nada se perde, nada se cria: tudo se transforma”, transformados pela tecnologia como resultado da evolução, hoje podemos dizer que somos ciborgs (cib-értico mais org-organismo)!

”Seres humanos versão beta” em constante atualização, que implantam (ou não) chips e próteses além de ingerir cápsulas com as mais diversas substancias, a fim de modificar e re-programar a lógica de funcionamento de seus corpos.

Na arte esta polêmica relação de embate do corpo com a tecnologia é sugerida pelo grupo de dança brasileiro internacionalmente conhecido, Cena 11, que explora os limites do corpo através da sua relação com a tecnologia através do uso de próteses (pernas de pau, separadores bucais e mascaras microfonadas) e outros objetos que passam a mediar esse conflito/relação, como robôs e etc. 

No século 17, época em que surgiu a idéia do homem como relógio/máquina, Shakespeare escreveu “We know what we are, but know not what we might become.”, três séculos depois em 1985, Donna Haraway anunciou ao fim de seu manifesto ciborg: “Eu prefiro ser ciborg a uma deusa!”

Os tempos mudaram…

Deixamos de ser os sujeitos do romantismo para nos tornamos sujeitos/objetos contemporâneos responsáveis pelo progresso que nos transforma e modifica. Enfim somos ciborgs, ou para melhor dizer, Até que enfim somos ciborgs! Ciborgs 

A pesquisa de mestrado transformada em livro. Surgiu lá, no fim do último capítulo, a idéia do corpo remoto controlado como hipótese para a dança que o Cena 11 vinha produzindo (nessa época, o grupo ainda dançava o espetáculo Violência (2000), ao mesmo tempo em que desenvolvia o Projeto SKR, em seu primeiro procedimento). Do corpo da marionete explorado em In’Perfeito (1997), ao corpo do robô no Procedimento 1 (2002), passando pelo corpo do videogame em Violência, parecia coerente levantar uma espécie de categoria (ou seria um conceito?) – justamente a do corpo remoto controlado – que pudesse reunir/abraçar os estágios desse percurso que vem sendo marcado pela perseguição de um interesse: o de pesquisar o movimento. De onde ele vem? Como se desenvolve? São forças internas ou externas que fazem o movimento acontecer?

Em seguida, surgiu um problema. O remoto controlado sugeria, em sua oralização e escrita, a idéia de um corpo passivo e, portanto, passível de dominação e sem perspectivas de liberdade. Para evitar esse equívoco, a Profa. Dra. Christine Greiner sugeriu que um “r” fosse agregado ao último nome do título, ficando assim: corpo remoto controlador. Sob o título “Genealogia de um corpo remoto controlador” apresentei a comunicação, que publiquei na forma de um pequeno artigo nos anais do III Congresso Brasileiro de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas . Apesar da ordenação das palavras chamar atenção, justamente pela brincadeira ou pequena contradição que dela emanava, ainda permanecia um certo incômodo pela fixação do atributo:

Artigo.

“Era da Cibercultura”. Para além do hoje consagrado gênero de ficção científica, a dialética entre cultura e tecnologia foi magistralmente representada pela fábrica de sonhos.

O cinema criou, assim, uma vasta galeria de protagonistas que vão desde o mítico Golem – criatura de barro animada por um sopro de vida – até os (anti?)heróis do mundo de Matrix, passando por robôs e sobretudo pelos cyborgs saudados por André Lemos, um dos anunciadores mais otimistas da sociedade tecnológica e de suas expressões culturais. Romper com a nítida separação entre os homens e seus artefatos, reconhecendo, assim, numa cultura artificial, a sua humanidade, é a mensagem de Lemos. Seu elogio aos cyborgs, resultantes, por assim dizer, de um processo ancestral, estruturado a partir da simbiose que forma o homem, a técnica e a cultura, será o mote para uma revisão histórica dos personagens cinematográficos que encarnaram esse espírito, oscilando entre dois momentos clássicos: ora representando o terror frente aos perigos de um maquinismo progressivo e funesto à humanidade; ora expressando a embriaguez que acompanha certa mística da tecnologia triunfante.

O debate entre técnica e cultura não deveria ser travado em termos reducionistas. O próprio ser humano, nos lembra Clifford Geertz (1978), é, a rigor, um artefato cultural. Seus valores, idéias, atos e emoções são, exatamente como o sistema nervoso da espécie, produtos culturais: produtos esses manufaturados, mesmo que a partir das tendências, capacidades e disposições dadas pelo nascimento. Se o sistema nervoso central cresceu em plena interação com a cultura, diz Geertz (1978), ele é incapaz de dirigir nosso comportamento ou organizar nossa experiência sem a orientação fornecida por sistemas de signos significantes. “Tais símbolos são, portanto, não apenas simples expressões, instrumentalidade ou correlatos de nossa existência biológica, psicológica e social: eles são seus pré-requisitos. Ciborg                                                                                                              Sem os homens certamente não haveria cultura, mas, de forma semelhante e muito significativa, sem cultura não haveria homens” O antropólogo ressalta, ainda, que, para obtermos as informações adicionais de que necessitamos para agir, “fomos forçados a depender cada vez mais das fontes culturais – o fundo acumulado de símbolos significantes” . Podemos acrescentar à observação de a crescente dependência e utilização das novas tecnologias. Pois, como sugere André Lemos no ensaio “Bodynet e Netcyborgs: sociabilidade e novas tecnologias na cultura contemporânea”, a profusão de equipamentos “baseados no princípio da informação, da comunicação e da miniaturização, nos revela, em todos os momentos da vida cotidiana, a técnica onipresente” (Lemos, 1995, p. 1).

Apostando no processo de virtualização e cyborgização da nossa cultura, Lemos – figura central entre os arautos eufóricos dessa nova configuração cultural (a dominante cultural pós-moderna, diria Fredric Jameson) – resgata a íntima relação entre orgânico e eletrônico (e as inevitáveis novas formas de sociabilidade daí decorrentes), evidenciando uma cyborg society, na qual o tecnológico e o humano (que pode ser lido como o artificial/tekhnè e o natural/phusis), em crescente simbiose, se constroem mutuamente.

Assim, todas as demais “próteses” da ação ou da percepção humanas seriam encaradas como “artificiais”, excluídas do universo da cultura3. Machado aponta precisamente o grande impasse de tal visão: ela nos leva à plena sensação de impotência e comodismo: um discurso catastrófico, ainda que humanista, parece assumir o lamento diante de uma sociedade marcada pela “colonização” do lazer e do imaginário. No extremo oposto dessa perspectiva, André Lemos nos provoca com a imagem de um “devir-cyborg” como parâmetro para que reflitamos sobre o devir da humanidade. O mais antigo ancestral do cyborg seria o homem pré-histórico, ao utilizar uma pedra como arma ou instrumento de sobrevivência: marco de uma cultura resultante de um perpétuo processo de artificialização da natureza (Lemos, 1995, p. 2).

Um novo mito para uma nova cultura? O olhar do cinema Ciborg

O cyborg, afirma Lemos, com um indisfarçável touch eufórico, irrompe como um mito extremo dessa “cibercultura” – típica forma de nossa “civilização do virtual” –, que marcaria o final de século e de milênio. Anulada a dicotomia entre artificial e natural, “a questão do cyborg pode ser colocada como estrutural da própria humanidade” (Lemos,). Nesse contexto de um mundo traduzido em “informações, tempo real e ciberespaço”, a imagem do cyborg torna-se emblemática para a “cibercultura”. Tais seres simbióticos, misto de organismo e cibernética, carne e maquinaria sofisticada, fugiriam do âmbito da ficção científica (gênero consagrado em nossa modernidade) para ingressar na vida cotidiana. Ciborg

É o clímax de um imaginário que, desde a Antigüidade, nos assombra com a antecipação de seres cuja humanidade é transfigurada (com freqüência, tornada impura) pelo artificial. É sobre parte desse imaginário, em especial em suas versões cinematográficas, que pretendemos refletir. Um imaginário que, de forma paradoxal e irônica, foi construído sob a égide de uma visão de mundo (e de suas formas culturais e massivas) rigorosamente moderna. A partir da primeira grande guerra – será “uma autêntica escola de dúvidas” em relação às próprias utopias racionalmente idealizadas (Saliba, 1994, p. 56-57). Daí ter sido o marco de Mèliés a única obra não atingida pela onda de pessimismo crítico que seria característico de toda a produção posterior. As melhores utopias cinematográficas, diz o autor – um tanto moderno – são aquelas, por excelência, antiutópicas: “Metropolis”, “Admirável Mundo Novo”, “Solaris”, “2001, uma Odisséia no Espaço”, “Blade Runner”, “Brazil – O Filme”, “1984”, “Laranja Mecânica”, “O Exterminador do Futuro”, entre outros.

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, W. 1985. A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica. In: W. BENJAMIN, Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas, Volume 1. São Paulo, Editora Brasiliense.

CLIFFORD, G. 1978. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro, Zahar.

FIKER, R. 1985. Ficção Científica. Ficção, ciência ou uma épica da época? Porto Alegre, LP&M.

GEADA, E. 1985. O Poder do Cinema. Coleção Horizonte de Cinema, volume 12, Lisboa, Livros Horizonte.

Interatividade.

O que diferencia o homem da máquina?

Citações

  Exterminador 4

 Terminator Salvation

Terminator Exhibition 

Battle or Coexistence? Robots and Our Future”

Exibição Exterminador – Batalha ou Coexistência? Robôs e Nosso Futuro

A exposição que mostra vários dos modelos usados nos filmes e na série, “visa inspirar os visitantes a pensar sobre o relacionamento entre humanos e máquinas”.

2 Respostas para “Ciborgs”

  1. Eugênio Furtado Diz:

    É impressão ou a “matéria sobre ciborgs” está pela metade?
    Teria sido interessante a citação da fonte bem como um comentário da própria equipe sobre o que foi escrito.

  2. Eugênio Furtado Diz:

    “Um novo mito para uma nova cultura? O olhar do cinema” faz parte do “artigo”?

    Qual o título do artigo?

    Esse material é de autoria própria? Se não, a fonte deve ser necessariamente creditada!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.